Trocou o cigarro normal pelo vape?

Cuidado, seu coração continua em risco!

 

Os dispositivos eletrônicos para fumar (DEF), também chamados de cigarros eletrônicos ou vapes (entre outros nomes dados no mercado), já não são mais uma novidade. Aliás, pelo contrário, eles estão cada vez mais populares, apesar de terem sua comercialização proibida no Brasil.

 

Estimativas da Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS apontam que o uso desses dispositivos vem crescendo: somente nos últimos seis anos, o aumento do consumo nas Américas foi de 600%. No país, segundo a Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica), quase três milhões de adultos são usuários do vape (dado de 2023).

 

E o que explica tamanha popularidade?

Os cigarros eletrônicos chegaram ao mercado como uma alternativa “mais saudável” ao consumo de nicotina e até como um aliado para aqueles que desejavam parar de fumar. Por não funcionar a partir da combustão de substâncias, não produzem a fumaça característica do cigarro convencional, e assim também não deixam cheiro ou mau hálito. Os dispositivos ainda possibilitam experimentar essências com sabores diversificados e condimentos especiais.

 

Além disso, seu uso é simples: para fumar, basta que o usuário puxe o ar pelo cartucho para que ele ative um atomizador, que aquece e vaporiza o líquido que está em seu refil, permitindo que a substância seja aspirada. A maioria funciona a base de uma bateria recarregável. Por todas essas razões, os vapes acabaram caindo nas graças especialmente de um público mais jovem.

 

Cigarro normal X eletrônico: entenda a diferença

Um dos principais apelos dos dispositivos eletrônicos é oferecer a nicotina em diferentes concentrações (e até a ausência dela) sem os outros compostos prejudiciais à saúde que existem nos cigarros convencionais. Para se ter ideia, quando o tabaco é queimado, cerca de 7 mil substâncias químicas são liberadas.

 

O cigarro comum contém, por exemplo, o alcatrão (uma mistura complexa de vários compostos maléficos) e o monóxido de carbono (gás originado da queima de inúmeras substâncias responsáveis por encadear asfixia e estar relacionado com as doenças cardiovasculares, respiratórias e cancerígenas).

 

Já nos vapes, além da nicotina, são encontrados: propilenoglicol e glicerina vegetal (bases líquidas que formam o vapor, capazes de irritar as vias respiratórias), aromatizantes (que em muitos casos geram compostos tóxicos quando aquecidos, como diacetil), compostos orgânicos voláteis (entre eles o formaldeído e acroleína, ambos tóxicos e cancerígenos), metais pesados (como chumbo, níquel e cromo, liberados pelo dispositivo e prejudiciais ao coração) e partículas ultrafinas (inaláveis que causam inflamação e danos aos pulmões).

 

Assim, embora realmente contenham ou possam reduzir a exposição a certos compostos, pesquisas recentes mostram que os DEFs não são isentos de riscos, reunindo perigos significativos à saúde, particularmente para o sistema cardiovascular e pulmonar.

 

Problemas para o coração

Apesar de, como mencionado, alguns cigarros eletrônicos serem vendidos sem nicotina, a grande maioria contém concentrações variáveis dessa substância, que é capaz de provocar o estreitamento e enrijecimento das artérias, o aumento da frequência cardíaca e do trabalho do coração, contribuindo para a formação de placas e coágulos.

 

E como vimos o risco não está só na nicotina. A essência utilizada nesses aparelhos é composta por saborizadores, muitos dos quais são usados em alimentos e considerados seguros para consumo. Entretanto, eles se tornam potencialmente danosos ao sistema cardiovascular quando são aquecidos e inalados, uma vez que podem se decompor em substâncias tóxicas e provocar a inflamação das células das artérias, veias e coração.

 

Os vapes são associados ainda ao aumento da pressão arterial e a disfunção endotelial, afetando a camada interna dos vasos sanguíneos. Todos esses aspectos estão ligados e predispõe o desenvolvimento de doenças cardíacas e outras possíveis consequências graves, como o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC).

 

Pesquisas

Um estudo americano, realizado na Escola de Medicina do Kansas, indica que usuários de vapes possuem 56% mais chances de ter um ataque cardíaco em comparação com não fumantes. O risco de um AVC é cerca de 30% maior. Depressão, transtornos de ansiedade e emocionais são cerca de duas vezes mais comuns do que em não fumantes.

 

Outra pesquisa, essa feita no Brasil pela Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde de SP em parceria com Instituto do Coração (Incor) e o Laboratório de Toxicologia da Universidade de São Paulo (USP), aponta que consumo de cigarro eletrônico provoca níveis de intoxicação no organismo tão altos quanto, ou até pior, que o cigarro convencional.

 

O levantamento inicial, promovido com base em dados de 200 fumantes de vapes, detectou que os níveis de nicotina presentes nesses indivíduos são de três a seis vezes maiores em relação aos fumantes de cigarros comuns.

 

Ajuda ilusória

Outro ponto que é importante destacar: não há comprovação científica a respeito da eficácia da utilização dos DEFs como instrumento para parar de fumar. Com os estudos que estão sendo realizados mundialmente ao longo dos últimos anos, sabe-se que os vapes que satisfazem os fumantes são os que contêm alta concentração de nicotina. Assim, há uma falsa ilusão de que ele ajuda o fumante a largar o vício.

 

E pior: para quem não tinha o hábito, os dispositivos acabam sendo uma porta de entrada para o tabagismo. Estimativas apontam que quem começa a fumar o cigarro eletrônico tem pelo menos duas vezes mais probabilidade de migrar para o cigarro convencional. Isso especialmente em razão do alto percentual de nicotina, que leva à dependência.

 

Portanto, trocar o cigarro tradicional pelo vape não elimina os impactos negativos sobre o sistema cardiovascular. E se a intenção é largar o vício, é aconselhável buscar métodos comprovadamente seguros e eficazes, sempre com orientação médica e considerando as consequências sobre a saúde, especialmente a do coração.

 

Comercialização no Brasil

Apesar de já estarem disponíveis para venda há mais de 20 anos (os primeiros produtos comercializados foram em 2003), os prejuízos que o uso desses aparelhos causam à saúde ainda não foram completamente revelados.

 

Primeiro porque estamos falando de um produto com grande variedade de tipos e compostos químicos – desde que foram criados, os equipamentos passaram por diversas mudanças, que envolvem diferentes equipamentos, tecnologias e formatos. Além disso, o resultado de pesquisas sobre seus efeitos ao corpo só estão sendo descobertos com o passar do tempo.

 

No Brasil, a fabricação, venda, importação e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar são proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 46/2009 determinou essa proibição devido à falta de comprovações suficientes sobre a segurança dos vapes e seus impactos.

 

Apesar dessa proibição oficial, muitos dispositivos são vendidos ilegalmente no país, tanto online quanto pelas mãos de ambulantes e em lojas físicas, o que especialistas afirmam ser um elemento que aumenta os riscos aos usuários. Isso porque, por serem ilegais, não há controle na fabricação, entrada no país ou nas substâncias utilizadas.