A importância do pré-natal completo

A importância do pré-natal completo

O diagnóstico precoce é crucial para o tratamento das cardiopatas congênitas

 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 130 milhões de crianças no mundo têm cardiopatia congênita, isto é, um conjunto de malformações na estrutura ou na função do coração que surgem durante o desenvolvimento fetal.

 

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 30 mil crianças nascem anualmente com esse tipo de problema, o que corresponde a 10 casos por mil nascidos vivos. As estimativas apontam que desse total, 40% necessitam de cirurgia ainda no primeiro ano.

 

E apesar dos avanços da medicina, que nos permitem hoje realizar uma avaliação cardiológica precisa da criança ainda durante a gestação, os números relevam que a cardiopatia congênita é uma das principais causas de mortalidade neonatal.

 

Dados do site da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que 6% das crianças morrem antes de completar 1 ano e, após o nascimento, as formas graves da doença podem ser responsáveis por 30% dos óbitos no período neonatal. O que torna evidente a importância de um pré-natal completo para a saúde e no bem-estar do bebê já desde os primeiros dias de gestação.

 

Quanto mais cedo, melhor!

E nem sempre o problema vai ser perceptível: segundo informações do Ministério da Saúde, 50% das cardiopatias podem gerar sintomas durante a gestação ou imediatamente após o nascimento. Portanto, é preciso investigar.

 

Quando o diagnóstico de problemas cardíacos congênitos é feito na gestação, mesmo não conseguindo curar a cardiopatia com o tratamento intrauterino, dependendo da gravidade, é possível fazer uma intervenção ainda no útero para melhorar o prognóstico da doença e as condições do coração, permitindo uma evolução mais favorável antes e depois do parto.

 

Caso o quadro permita aguardar, após o nascimento, o bebê é submetido a uma cirurgia ou tratamento logo nas primeiras horas ou dias de vida, com tudo programado, como local ideal de nascimento, a idade gestacional e via de parto apropriada. Ou seja, oferece aos pais e médicos a oportunidade de tomar decisões e preparar-se para qualquer eventualidade.

 

Assim, a possibilidade das intervenções precoces, torna viável minimizar riscos, oferecer mais qualidade de vida e evitar que o paciente venha sofrer consequências mais graves com a descoberta tardia do problema, ao longo da vida. Em grande parte dos casos, o fato da alteração ser detectada e tratada cedo aumenta as chances de sobrevida da criança em 80%.

 

Fora da fila dos transplantes

No caso de cardiopatias muito graves, sem perspectiva de correção, é preciso muitas vezes fazer um transplante de coração, cenário complicado por conta da dificuldade em encontrar um doador – a busca, que já é complexa no geral, se torna ainda pior quando falamos de um doador de 3 Kg a 5 kg.

 

Por isso, nesses quadros a possibilidade de minimizar o problema através de intervenção com a criança ainda no útero passa a ter ainda mais relevância e urgência. Hoje, bebês que antigamente eram considerados casos que deveriam ir para transplante, conseguem fazer outros tratamentos por conta da evolução dos diagnósticos e cirurgias cardíacas no momento de formação ou nos primeiros dias de vida.

 

Principais problemas

Durante o pré-natal, os médicos realizam uma série de exames e testes que ajudam a identificar qualquer anomalia no desenvolvimento do coração do feto. Essas condições podem variar desde defeitos estruturais simples até questões mais complexas.

 

Defeitos anatômicos do coração ou dos grandes vasos associados podem, por exemplo, gerar uma anormalidade na função cardíaca, alterações do fluxo sanguíneo e influenciar até o desenvolvimento estrutural e funcional do sistema cardiovascular e respiratório, além de consequências que comprometem a vida.

 

Entre as várias possibilidades de cardiopatias congênitas, podemos citar: uma estenose aórtica grave, tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias, comunicação interatrial, comunicação interventricular e defeito do septo atrioventricular.

 

Que exames são realizados?

Entre os exames recomendados está o ultrassom morfológico, realizado no 1º ou 2º trimestre de gestação. Trata-se de um recurso capaz de revelar a possibilidade de alterações congênitas e, caso alguma suspeita seja detectada, a gestante é encaminhada ao cardiologista fetal.

 

Para conseguir mais detalhes, é feito então um ecocardiograma fetal (ou ecofetal), uma espécie de ultrassom que faz o rastreamento da má formação e permite uma avaliação minuciosa de anormalidades estruturais e da função cardíaca. Após o diagnóstico, a orientação é que a gestante procure um centro especializado em cardiopatias.

 

Fatores de risco

O uso de medicamentos e drogas, doenças maternas (como o diabetes, rubéola, toxoplasmose e outras infecções durante o período gestacional) podem interferir na formação do coração, que ocorre nas primeiras oito semanas de gravidez. Outro ponto de atenção é a idade da gestante, muito jovem ou com mais de 40 anos.

 

Ainda entre os principais fatores de risco, importante destacar a herança genética. Além da família, pais portadores de cardiopatias congênitas têm duas vezes mais chances de gerar um bebê cardiopata. O mesmo ocorre quando o casal já teve um bebê com malformação no coração.

 

Nesses casos, acompanhamento médico e exames pré-natal são fundamentais. Entretanto, apesar de haver uma maior probabilidade entre os aspectos listados, vale destacar que mais de 90% das malformações cardíacas ocorrem em fetos sem qualquer indicador de risco.

 

Cuidados durante a gestação

Assim, o acompanhamento e a realização de todos os exames durante a gestação é de extrema importância. De acordo com o Ministério da Saúde, são recomendadas no mínimo 6 consultas de pré-natal durante toda a fase gestacional, que devem ser iniciadas até a 12ª semana. No caso dos exames do coração, a orientação é que a gestante faça com cerca de 20 a 24 semanas, quando o feto já está mais formado.

 

Em casos de gravidez planejada, é aconselhável que a mulher procure um médico para uma avaliação prévia. Desta maneira, é possível checar seu estado de saúde, fazer suplementações se necessário e acompanhar de perto no caso de doenças de risco, como diabetes, colesterol e pressão alta.

 

Não há como prevenir uma cardiopatia congênita, no entanto, algumas mudanças comportamentais e cuidados com saúde e alimentação da mãe podem ajudar. Investir em um pré-natal completo não é apenas uma medida preventiva, mas um ato de amor e responsabilidade que pode fazer toda a diferença no futuro do bebê.