Obesidade é uma doença e não uma questão estética

Obesidade é uma doença e não uma questão estética

 

A obesidade é uma condição médica, crônica, progressiva, complexa e multifatorial. Uma doença caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no corpo, que pode afetar o coração de várias maneiras.

 

Tem como possíveis consequências danos sérios e patologias associadas, como hipertensão, diabetes, colesterol alto, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares, problemas articulares e respiratórios, entre muitos outros. Assim, considerar o controle de peso apenas um padrão estético é minimizar sua gravidade e impacto na saúde e na qualidade de vida das pessoas afetadas.

 

E se você imagina que estamos falando aqui de uma situação distante ou que atinge uma minoria, está enganado. As estatísticas revelam um cenário bem preocupante, não só hoje, mas também no futuro. Pesquisa apresentada no Congresso Internacional sobre Obesidade, em junho deste ano, sugere que, atualmente, 56% dos adultos no Brasil (com mais de 18 anos) estão acima do peso: 34% com obesidade e 22% com sobrepeso.

 

Em 20 anos, de acordo com o levantamento, serão 48% com obesidade e outros 27% com sobrepeso, totalizando 75% da população nessa faixa. Isso significa que cerca de 130 milhões de indivíduos no país deverão estar acima do peso em 2044 (desse total, aproximadamente 83 milhões com obesidade e 47 milhões com sobrepeso).

 

Distribuição da gordura no corpo

De modo geral, os danos mudam ou se agravam de acordo com a localização e a distribuição da gordura. Os quadros que precisam de mais atenção são de pessoas em que a gordura está acumulada, predominantemente, na região abdominal. Nesses casos, as chances do desenvolvimento de doenças e eventos que afetam o coração e os vasos sanguíneos são maiores.

 

Já quando a gordura atinge e se concentra em áreas periféricas do corpo, como coxas, quadris e nádegas, falamos de uma obesidade ligada a problemas circulatórios, como insuficiência venosa e varizes, além de complicações em decorrência da sobrecarga do peso nas articulações.

 

Por último, temos a obesidade homogênea, aquela em que não há uma predominância em área específica. A gordura está distribuída tanto na região abdominal quanto nos membros superiores e inferiores.

 

O coração do obeso

Conforme mencionado, o excesso de peso e a obesidade são fatores de risco para diversas questões que atingem o sistema cardiovascular. Elas podem causar mudanças importantes na estrutura e no tamanho do coração, além de comprometer o seu funcionamento. Vejamos algumas:

 

– Hipertensão: a partir de um quadro de obesidade é possível surgir, por exemplo, a hipertensão. O aumento da pressão arterial força o coração a trabalhar mais intensamente, o que, ao longo do tempo, pode levar ao desgaste do músculo cardíaco.

 

– Dislipidemia: a doença também está frequentemente associada a níveis anormais de colesterol LDL (o chamado colesterol “ruim”) e triglicerídeos no sangue, cenário conhecido como dislipidemia. Esse desequilíbrio lipídico favorece a formação de placas de gordura nas paredes das artérias coronárias – processo que recebe o nome de aterosclerose – e pode levar a obstrução total ou parcial do fluxo sanguíneo.

 

– Diabetes: outro fator de risco importante ligado à obesidade é o diabetes tipo 2, condição em que o corpo se torna resistente à insulina, ou seja, não consegue utilizar adequadamente o hormônio que produz. Com níveis elevados de glicose no sangue, várias alterações que interferem no sistema cardiovascular podem acontecer, como uma alta nos níveis de colesterol e uma tendência ao aumento na produção de coágulos.

 

– Inflamação crônica: a obesidade contribui ainda para um estado de inflamação crônica no organismo. A gordura em excesso, especialmente a visceral, isto é, aquela que se acumula ao redor dos órgãos internos, libera substâncias inflamatórias que podem danificar os vasos e o coração. Essa inflamação crônica está intimamente ligada ao desenvolvimento de doenças cardíacas.

 

– Distúrbios do sono: outro risco relacionado à obesidade é a apneia do sono, uma condição em que a respiração é repetidamente interrompida enquanto dormimos. A apneia do sono, comum em pessoas obesas, pode levar a episódios de pressão alta e arritmias.

 

Consequências

Todos os fatores listados acima podem levar a um quadro de insuficiência cardíaca (quando o coração não consegue bombear o sangue como deveria), ao infarto do miocárdio (a interrupção do fluxo sanguíneo desencadeia o infarto e o processo de necrose da musculatura do coração) e ao acidente vascular cerebral – AVC (o mesmo processo que acontece com as coronárias ocorre em outras artérias do corpo, nesse caso provocando a falta de sangue no cérebro).

 

Devo me preocupar?

Para a indicação de sobrepeso e obesidade, é feito um cálculo com base no Índice de Massa Corporal (IMC), que traz a relação entre peso e altura (IMC = peso/ (altura x altura)). Se o resultado obtido for acima de 25 kg/m², consideramos que há excesso de peso. Já valores que ultrapassam 30 kg/m² indicam obesidade.

 

Confira a classificação completa:

Peso normal: IMC entre 18.0 a 24,9 kg/m2;

Sobrepeso: IMC entre 25.0 a 29,9 kg/m2;

Obesidade grau 1/leve: IMC entre 30.0 – 34.9 kg/m2;

Obesidade grau 2/moderada: IMC entre 35.0 – 39.9 kg/m2;

Obesidade grau 3/grave (antigamente chamada de mórbida): IMC igual ou superior 40 kg/m2.

 

Também vale medir a circunferência abdominal

Para saber se a gordura acumulada na cintura coloca a saúde do coração em risco também é recomendado fazer, com uma fita métrica, a medição da circunferência abdominal: na cintura, na altura do umbigo, enlaçamos a fita alinhada horizontalmente. É preciso então respirar fundo e soltar o ar. A medida não deve ultrapassar 80 cm nas mulheres e 94 cm nos homens.

 

A importância do controle de peso

Em muitos casos de obesidade, a perda de peso, mesmo que moderada, pode ter um impacto positivo de forma significativa na saúde do coração. Estimativas apontam que reduzir apenas 5% a 10% do peso corporal já é capaz de melhorar a pressão arterial, os níveis de colesterol e reduzir o risco de diabetes tipo 2. O controle de peso também contribui para a qualidade do sono, aumento da energia e pode reduzir o risco de outras condições de saúde.

 

Para isso, é indicado a adoção de hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação balanceada, rica em nutrientes e pobre em gorduras saturadas, sódio e açúcares refinados, além da prática regular de atividades físicas.

 

O que causa a obesidade?

Porém, o sobrepeso e a obesidade não estão relacionados apenas com o que entra no prato e o controle da quantidade de calorias. Os motivos que levam alguém a ganhar peso, acumular gordura e desenvolver a obesidade são inúmeros e vão dos hábitos alimentares e estilo de vida a desequilíbrios hormonais, transtornos psicológicos e emocionais (que levam à compulsão alimentar), predisposições genéticas até o ambiente e a situação socioeconômica em que se vive.

 

Portanto, o tratamento vai depender dos fatores que levaram a condição e podem abranger, por exemplo, mudanças nos hábitos, tratamentos psicológicos e procedimentos cirúrgicos (como as cirurgias bariátrica e metabólica). Assim, muitas vezes, será preciso uma equipe multidisciplinar, composta por médico, nutricionista e psicólogo, para o processo de perda de peso.

 

Devemos ter em mente que a obesidade é uma doença que exige tratamento sério e contínuo. Como vimos, os cuidados essenciais para o sobrepeso ou a obesidade, por consequência, trarão benefícios também para a saúde de todo sistema cardiovascular.