Crise de ansiedade X infarto: por que essas condições são confundidas?
Entenda as principais semelhanças e diferenças entre elas
De repente alguém próximo a você começa a sentir uma forte dor no peito, seguida por formigamentos pelo corpo, enjoo, coração acelerado, transpiração excessiva e dificuldades para respirar. Não é raro o cenário gerar dúvidas: será que se trata de um infarto do miocárdio ou uma crise de ansiedade?
Semelhanças
A crise de ansiedade e o infarto são duas condições que, apesar de muito distintas, podem de fato confundir por apresentarem sintomas físicos parecidos, o que leva indivíduos até darem entrada no pronto-socorro, mesmo sem nenhum problema no coração.
É comum, por exemplo, que nos dois quadros a pessoa apresente dor ou sensação de aperto na região do tórax, palpitações, sudorese e falta de ar. Também é normal sentir uma angústia intensa e um medo avassalador de que algo muito grave está acontecendo. Medo esse que chega a ser paralisante e intensifica ainda mais os sintomas já presentes.
Ambas as situações podem ser assustadoras e demandam atenção e cuidados, mas suas causas, tratamentos e implicações são singulares, tornando crucial saber diferenciá-las e identificar algumas características que possam ajudar no diagnóstico inicial de cada uma dessas condições.
Como identificar um infarto?
Um infarto ou ataque cardíaco acontece a partir de uma obstrução ou interrupção parcial ou total do fluxo sanguíneo para o coração, geralmente devido a um coágulo ou acúmulo de placas de gordura nas artérias coronárias. Em situações assim, os sintomas surgem no corpo de forma aguda, indicando que o músculo cardíaco está debilitado.
Na maior parte dos casos, a dor começa no meio do peito e pode ser sentida no braço esquerdo (provocando formigamento) e nas costas, além de irradiar para o pescoço, nuca, ombros, mandíbula, queixo e estômago. Indivíduos que já sofreram um ataque cardíaco descrevem a dor como opressiva, ou seja, uma sensação de aperto ou pressão no peito. Sua intensidade varia e ela não passa mesmo quando a pessoa fica em repouso.
Também é possível surgirem outros sinais, como: transpiração fria, náuseas, vômito e desmaio. De maneira geral, não há alterações na respiração, exceto quando o ataque provoca simultaneamente uma crise de ansiedade.
Esse estado dura em média cerca de cinco minutos, mas em alguns casos se estende por até vinte minutos, revelando que de fato há um problema nas artérias, impedindo que o sangue chegue da forma efetiva ao coração. Os sintomas de um infarto são contínuos e tendem a piorar gradativamente. Sem intervenção médica, o quadro tem potencial para causar danos permanentes ao tecido cardíaco e ser até fatal se não tratado imediatamente.
Quando se trata de uma crise de ansiedade?
Aqui as principais diferenças estão relacionadas com a causa e o contexto. De modo geral, as crises de ansiedade são desencadeadas por questões psicológicas, preocupações, traumas ou situações emocionais muito intensas. Trata-se de uma reação do corpo ao perigo percebido, ativando o sistema nervoso simpático, especialmente a resposta de “luta ou fuga” – que nos prepara para algo ruim, deixando o organismo em estado de alerta.
Como consequência, durante uma crise, a produção hormonal é estimulada, fazendo com que o corpo libere mais adrenalina e noradrenalina, por exemplo, substâncias que aumentam a frequência cardíaca, geram taquicardia, alteram a pressão arterial, dificultam a respiração, aumentam o suor, causam dores de cabeça, tremores, vômitos, tonturas e a sensação de quase desmaio.
A dor que se manifesta também se concentra na área do peito, mas sem a pressão gerada nos ataques cardíacos. Além disso, ela não se limita ao braço esquerdo, podendo irradiar no braço direito, pernas, dedos e pescoço. A intensidade é outra forma de diferenciação. No caso da ansiedade, ela é muito menor que a do infarto.
E apesar da dor na região do tórax, isso não quer dizer necessariamente que há um problema físico no coração ou no sistema cardiovascular. É comum que outros órgãos situados nessa área causem reações fortes, que acabam gerando confusão, a exemplo do estômago (com uma gastrite) ou o esôfago (com o refluxo).
Sinais prévios de depressão e alterações de humor também podem caracterizar o quadro. Outra diferença é o tempo em que os sintomas alcançam seu ponto máximo: as crises têm duração variada, se prolongando de alguns minutos a várias horas. Entretanto, em geral atingem seu auge entre 10 e 20 minutos.
Aos poucos, os níveis dos hormônios estimulados baixam e o indivíduo volta a ter controle corporal. Normalmente, os pacientes apresentam melhoras com repouso, técnicas de relaxamento, respiração profunda e intervenção psicológica. Embora possa ser extremamente desconfortável, uma crise de ansiedade na maioria dos casos não provoca danos físicos permanentes.
Correlação: crises de ansiedade aumentam os riscos de problemas no coração
Mesmo que as crises de ansiedade não representem, necessariamente, um evento cardíaco, estudos apontam que elas são atualmente reconhecidas como fatores de risco cardiovascular, uma vez que, quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória que predispõem problemas cardíacos.
Os efeitos da ansiedade sobre o corpo, como a hipercortisolemia (altos níveis de cortisol na corrente sanguínea), hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico estimulam a vasoconstrição, a evolução da aterosclerose, a ocorrência de doença arterial coronariana, o aparecimento hipertensão arterial e arritmias, além de outros eventos que envolvem o coração e os vasos sanguíneos.
A importância do diagnóstico correto
Para distinguir as duas condições, é interessante considerar ainda fatores que aumentam as chances de um problema cardiovascular, entre eles idade, hábito de fumar, histórico familiar ou de doenças (como diabetes e hipertensão), quadros de sobrepeso e obesidade, qualidade da alimentação e a rotina de exercícios.
Entretanto, devido às semelhanças nos sintomas, é essencial que qualquer pessoa que experimente uma dor no peito, especialmente quando vier acompanhada de algum dos outros indícios citados, busque atendimento médico imediato para descartar a possibilidade um infarto do miocárdio. Até porque no caso dos ataques cardíacos nos deparamos com exceções: há pacientes que apresentam sintomas diferentes ou até mesmo nenhum sinal.
Por isso, somente um profissional de saúde é capaz de realizar os testes necessários para diagnosticar corretamente a condição e iniciar o tratamento adequado. Isso porque não receber atendimento a tempo, se estiver sofrendo de um infarto, pode significar complicações sérias e o risco de morte.
No caso de uma crise de ansiedade, não buscar ajuda pode piorar o problema, aumentando a frequência das crises. Tratamento e acompanhamento atenuam os efeitos negativos do transtorno sobre a qualidade de vida e, como visto, também sobre a saúde cardiovascular.